Das águas turvas do rio Amazonas, um pescador retira uma criatura impressionante. Seu corpo esguio, com mais de um metro de comprimento, pele prateada e bigodes, brilha sob o sol tropical intenso.
A Dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) é uma grande espécie migratória de água doce. A cada ano, esses gigantes percorrem milhares de quilômetros pelas vastas artérias da Bacia Amazônica, realizando a mais longa migração entre todos os peixes de água doce do planeta.
Foi apenas recentemente, em 2017, que os cientistas descobriram a verdadeira escala dessa jornada. Ao longo de sua vida de 12 a 15 anos, os bagres percorrem entre 8.000 e 12.000 quilômetros – uma distância quase igual a toda a extensão da América do Sul. Mas essa descoberta notável foi acompanhada de preocupação crescente: interrupções causadas pelo homem ao longo da rota migratória poderiam, um dia, impedir que os peixes façam a viagem por completo.
De 23 a 29 de março, governos, especialistas e representantes da sociedade civil de todo o mundo estão em Campo Grande, Brasil, para a 15ª reunião das partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS COP15), o tratado mais importante focado na conservação das espécies migratórias e seus habitats.
Com o Brasil, lar da Bacia Amazônica, sediando a COP, o impulso está crescendo para proteger a dourada – e todos os peixes migratórios de água doce. Um novo relatório lançado pela CMS, a Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce , tem como objetivo colocar essas espécies no topo da agenda e apoiar sua sobrevivência ao destacar seu papel no meio ambiente e nas economias – e a necessidade de os países ao longo das rotas migratórias fortalecerem a conservação.
Ciclo de vida escrito em movimento
A jornada da dourada começa perto das encostas dos Andes, onde rios montanhosos deságuam na Bacia Amazônica. Levadas rio abaixo por correntes poderosas, as larvas flutuam com a correnteza e percorrem milhares de quilômetros pelas vastas planícies aluviais da Amazônia.
Quando a dourada chega ao estuário, onde o rio Amazonas encontra o Oceano Atlântico, os peixes já se transformaram em juvenis. Nessa área, a água doce do rio se mistura com a água salgada do oceano, formando um dos ecossistemas mais ricos em nutrientes da Terra. Por dois a três anos, os peixes se alimentam e crescem nesse ambiente abundante, acumulando a força necessária para a próxima fase da vida.
Em seguida, depois que os peixes atingem a idade adulta, eles iniciam a jornada de volta para casa. Desencadeada pelas chuvas sazonais na Amazônia ocidental, a elevação do nível das águas indica que é hora de migrar. À medida que os rios crescem, novos caminhos surgem pela bacia, e riachos antes estreitos se transformam em vastas rodovias aquáticas. Isso permite que os bagres adultos nadem rio acima, contra a corrente, de volta aos Andes. Ao chegar às nascentes, os bagres desovam, marcando o início de um novo ciclo de vida.
Essa jornada ao longo da vida ilustra como a Amazônia funciona como um único ecossistema interconectado que se estende dos Andes ao Oceano Atlântico – e como a sobrevivência de suas muitas espécies migratórias depende de toda a rota ser propícia para suas viagens.
Predador e presa
Não é apenas a incrível jornada da dourada que a torna tão importante. Ela também desempenha papéis fundamentais no sistema fluvial do Amazonas. Como predador de topo, ela ajuda a estruturar as cadeias alimentares aquáticas e a manter o equilíbrio ecológico. O declínio desses predadores tão importantes pode desencadear uma cascata de efeitos desestabilizadores sobre a saúde e o equilíbrio de todo o ecossistema.
A dourada, juntamente com outros bagres amazônicos, também é um componente essencial da segurança alimentar humana em toda a região, fornecendo uma fonte fundamental de proteína para milhões de pessoas – e meios de subsistência. As migrações desses bagres sustentam algumas das mais importantes pescarias comerciais da Amazônia, impulsionando as economias locais.
Interrupções no caminho
A migração da espécie, no entanto, está se tornando mais difícil. O novo relatório Global de Avaliação da CMS destaca como novas barragens e infraestrutura hidrelétrica em toda a Amazônia estão remodelando os ecossistemas para peixes de água doce. Esses projetos interrompem o fluxo natural dos rios, afetam as temperaturas da água e diminuem as enchentes sazonais que alimentam as planícies de inundação. Mais importante ainda, infraestruturas mal projetadas podem obstruir rotas migratórias essenciais, impedindo que os peixes acessem as áreas de desova cruciais para seus ciclos de vida.
Enquanto isso, o relatório também observa que, apesar dos benefícios econômicos, a indústria pesqueira da Amazônia está cheia de práticas insustentáveis e altas taxas de mortalidade por pesca, impedindo as populações de se reabastecer. A poluição fluvial, o desmatamento e as mudanças climáticas estão desestabilizando ainda mais sistemas já frágeis e ameaçando a espécie.
Esses desafios não são exclusivos da dourada e de outros peixes de água doce na Amazônia. Infraestrutura, exploração de espécies, poluição, degradação do habitat e flutuações nos ritmos naturais estão interrompendo as migrações de espécies ao redor do mundo, que se deslocam não apenas pela água, mas também pela terra e pelo ar.
"Os bagres amazônicos são criaturas incrivelmente únicas, mas também são emblemas dos desafios enfrentados pelas espécies migratórias ao redor do mundo", disse Amy Fraenkel, secretária-executiva da CMS. "Se interrompermos seus padrões migratórios e habitats, também prejudicaremos nossas próprias economias e bem-estar."
Um argumento para maior cooperação
Peixes migratórios não reconhecem fronteiras nacionais, e nenhum país sozinho consegue lidar de forma eficaz com as crescentes ameaças aos bagres amazónicos e a outras espécies migratórias. É por isso que a CMS está promovendo uma maior colaboração entre os países para garantir rotas de migração seguras de forma holística, em vez de adotar uma abordagem fragmentada. Em pauta na COP15 da CMS está o Plano de Ação Multiespécies para o Bagre Migratório da Amazônia, que melhoraria a conservação e o uso sustentável dessas espécies e de seus habitats prioritários.
A CMS colabora com governos para promover a coordenação regional para mapear e proteger rotas migratórias, restaurar a conectividade e os fluxos ambientais, regular a pesca e reduzir a poluição. Também defende o envolvimento dos povos indígenas e das comunidades locais na tomada de decisões.
"Com o conhecimento científico agora disponível, esperamos que, nesta COP, as Partes traduzam evidências em ambição – e ambição em ação coordenada que mantenha as espécies migratórias em movimento e os ecossistemas de água doce prosperando", disse Fraenkel.


