Photo by NASA / Google Earth
23 Jul 2025 Technical Highlight Climate Action

Alertas por satélite aceleram cortes de metano, mas desafios persistem

Photo by NASA / Google Earth

Em novembro do ano passado, Juan José Rivera recebeu um e-mail inesperado. Ele informava que metano invisível e responsável pelo aquecimento global estava vazando de um poço de petróleo na província de Chubut, no sul da Argentina. 

“No começo, achei estranho”, disse Rivera, que é secretário de Meio Ambiente e Controle do Desenvolvimento Sustentável de Chubut. “Mas, ao ler com mais atenção, encontrei muitos detalhes sobre a emissão, incluindo coordenadas e até o nome do possível operador.” 

O alerta, baseado em imagens de satélite, veio do Sistema de Alerta e Resposta a Emissões de Metano (Methane Altert and Response System) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), conhecido como MARS. A mensagem informava que o vazamento estava liberando cerca de 4,2 toneladas de metano por hora. Rivera agiu rapidamente, informando o operador sobre a detecção. O operador respondeu confirmando que, após investigar o incidente, havia tomado medidas de mitigação. Em poucas semanas, imagens de satélite do MARS confirmaram que o vazamento havia sido interrompido. 

As ações rápidas de Rivera fazem parte de um aumento recente nas respostas aos alertas do MARS. No ano passado, o Observatório Internacional de Emissões de Metano (International Methane Emissions Observatory ou IMEO) do PNUMA, que gerencia o MARS, relatou que apenas um em cada 100 destinatários respondia às notificações do IMEO. Agora, essa taxa aumentou para 10%. 

Embora haja uma necessidade urgente de melhorias, o aumento na taxa de resposta indica que o MARS está catalisando ações concretas de mitigação em todo o mundo, afirma Ruth Coutto, vice-diretora da Divisão de Mudança do Clima do PNUMA. 

Da Argentina ao Cazaquistão e Omã, esses casos demonstram como dados podem levar à redução de emissões de metano. E apontam para os ganhos climáticos significativos que são possíveis se mais governos e empresas aproveitarem essa ferramenta, diz Coutto. 

“É muito encorajador ver empresas e países começando a acionar essa alavanca climática poderosa — emissões de metano”, afirma ela. “O MARS foi criado para viabilizar cortes de metano, e o impulso está crescendo. Estamos aqui e estamos prontos para que mais países e empresas se juntem a esse progresso.” 

MARS promove avanços quantificáveis 

O metano é um gás de efeito estufa potente — 80 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono —, mas de curta duração, permanecendo na atmosfera por cerca de uma década. Isso significa que reduzir as emissões de metano pode proporcionar um alívio climático rápido, desacelerando o ritmo do aquecimento global e ganhando tempo valioso enquanto o mundo avança na descarbonização. 

As emissões de metano precisam ser reduzidas em pelo menos 30% nesta década para que os compromissos do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais sejam cumpridos. Essa é a meta estabelecida pelos 160 países que apoiam o Compromisso Global sobre o Metano (Global Methane Pledge), do qual o IMEO do PNUMA é parceiro central na implementação, junto à Coalizão Clima e Ar Limpo, também coordenada pelo PNUMA. 

No entanto, as emissões de metano continuam persistentemente altas. O MARS pode ajudar a transformar essas promessas em progresso concreto, afirma Coutto. É o único sistema que combina dados de mais de uma dúzia de satélites e envia alertas gratuitos a governos e empresas sobre emissões significativas de metano. 

Com os dados do MARS, o PNUMA envia notificações a uma rede crescente de pontos focais indicados pelos governos. O IMEO considera que houve uma resposta quando os destinatários retornam com informações detalhadas sobre o evento de emissão que originou o alerta. 

Satellite observation of methane emissions mitigation in Argentina
Uma série de três imagens de satélite mostra metano detectado em operações de petróleo e gás na Argentina e a interrupção das emissões após um alerta do PNUMA. Crédito: NASA / Google Earth

Segundo Rivera, ponto focal do MARS em Chubut, esses alertas são cruciais para ajudar o governo provincial a monitorar grandes emissões da indústria de petróleo e gás, especialmente porque Chubut atualmente não possui ferramentas próprias para medir metano. 

Após Rivera encaminhar o alerta do MARS, o operador rastreou o vazamento até um poço de petróleo — o que foi surpreendente, já que a formação rochosa abaixo não era conhecida por conter gás. O operador instalou novos equipamentos para capturar o gás excedente e prevenir vazamentos futuros. Em 8 de janeiro de 2025, o IMEO confirmou que os reparos funcionaram: os satélites não detectaram mais emissões no local. 

Durante o período em que o IMEO monitorou o vazamento, o impacto climático de curto prazo foi equivalente às emissões anuais de 25.000 carros. 

“Dado o esforço de cada ator e o resultado alcançado, o sentimento geral é de satisfação”, disse Rivera. “Todos entendemos a importância de controlar essas emissões e agimos de acordo, cada um cumprindo seu papel e contribuindo para reduzir o impacto global das mudanças climáticas.” 

Na Argentina, várias províncias estão respondendo a essas notificações, algumas chegando a uma taxa de resposta de 100%. Diversos governos provinciais, incluindo o de Chubut, solicitaram apoio do PNUMA para desenvolver regulamentações que exijam que as empresas meçam e reportem suas emissões de metano. Espera-se que essas normas se baseiem nos padrões desenvolvidos pela Parceria de Metano para Petróleo e Gás 2.0 (Oil and Gas Methane Partnerships 2.0 ou OGMP 2.0) do PNUMA — um acordo criado para garantir que dados confiáveis possibilitem transparência e mitigação no setor de petróleo e gás. 

Parcerias com o setor privado aceleram a ação climática 

Quando os operadores de instalações são empresas-membros da OGMP 2.0, o IMEO envia os alertas do MARS diretamente a elas, além de notificar o ponto focal do governo. Essa linha direta de comunicação pode acelerar a ação climática, muitas vezes resultando em tempos de resposta mais rápidos do que os alertas enviados apenas via contatos governamentais. 

Foi o que aconteceu no Cazaquistão, onde o MARS detectou uma vasta pluma de metano sendo emitida por um campo de petróleo próximo ao Mar Cáspio. Analistas estimaram que o campo estava emitindo cerca de 6,9 toneladas de metano por hora — aproximadamente o mesmo impacto climático de curto prazo de 130 carros rodando durante um ano. Como o campo de petróleo estava vinculado a uma empresa-membro da OGMP 2.0, o IMEO enviou uma notificação diretamente à companhia em fevereiro. 

O vazamento foi rastreado até uma seção desgastada do oleoduto, que foi substituída. Em 7 de abril, imagens de satélite confirmaram que o reparo foi bem-sucedido. 

A mitigação assume diversas formas 

Esses casos recentes demonstram a diversidade da mitigação, diz Coutto. Às vezes, as emissões de metano podem ser interrompidas substituindo uma seção danificada do oleoduto ou instalando novos equipamentos. Outras vezes, os operadores emitiram avisos ou adotaram novos protocolos para evitar que as emissões acontecessem novamente. 

No Turcomenistão, por exemplo, um operador esqueceu de acender a tocha — um processo normalmente usado para queimar o gás natural excedente. Isso fez com que o metano escapasse para a atmosfera por 48 horas sem controle, até que todo o gás em excesso se dissipasse. As emissões cessaram por conta própria. No entanto, a Turkmengaz, empresa nacional de petróleo e gás do Turcomenistão, relatou que uma notificação do MARS levou à emissão de uma advertência ao operador responsável pela tocha, reforçando a importância de acendê-la corretamente no futuro. 

Em Omã, uma empresa-membro da OGMP 2.0 adotou uma abordagem inovadora para evitar vazamentos futuros. Lá, um alerta do MARS ajudou os operadores a identificar que um processo intermitente de manutenção estava permitindo a liberação de metano na atmosfera. A equipe elaborou um cartaz com diretrizes sobre como evitar emissões durante esse procedimento, distribuiu o material para as equipes relevantes e realizou sessões informativas para garantir que todos soubessem o que fazer. 

O cartaz menciona o aquecimento global e os danos à reputação como possíveis consequências de emissões descontroladas — um sinal, segundo especialistas, de mudança dentro da própria indústria. 

 

Explore os dados 

Os dados do MARS estão disponíveis para todos — não apenas para pontos focais de decisões em governos e empresas. A plataforma de dados “Eye on Methane”, do IMEO, agora oferece atualizações mensais por e-mail com resumos das últimas divulgações de dados. 

Inscreva-se aqui: https://methanedata.unep.org/updates