Nos arredores da Cidade do Cabo, na África do Sul, encontra-se uma movimentada fábrica de roupas pertencente à Cape Union Mart, uma das varejistas de vestuário outdoor mais conhecidas do país.
A fábrica produz cerca de 190 mil jaquetas acolchoadas por ano, e a Cape Union Mart vinha buscando maneiras de reduzir sua pegada ambiental. Assim, em 2021, a empresa firmou uma parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O objetivo era mapear quanta água e energia eram utilizadas na produção de cada jaqueta e descobrir como consumir menos recursos.
Esta avaliação do ciclo de vida revelou que mais de 80% do impacto ambiental de uma jaqueta vem da produção do tecido. Isso levou a Cape Union Mart a revisar seus critérios de aquisição, segundo a Gerente de Pré-Produção, Michelle Goddard. A empresa agora só compra materiais de fornecedores que atendem a rigorosos padrões ambientais.
“Os clientes estão definitivamente buscando produtos mais sustentáveis e ser ambientalmente responsável faz sentido para a nossa marca”, diz Goddard. “Mais do que isso, manter tudo como está já não é uma opção. As atividades humanas fizeram com que os sistemas da Terra ultrapassassem seis dos nove limites planetários necessários para um planeta saudável, e há uma necessidade urgente de as empresas integrarem práticas sustentáveis.”
A avaliação do ciclo de vida fez parte de um esforço maior do PNUMA para ajudar pequenas e médias fabricantes de têxteis a reduzirem seu impacto ambiental. Da Tunísia à África do Sul, esse programa do PNUMA tem trabalhado com fabricantes de roupas para cortar as emissões de gases de efeito estufa, eliminar gradualmente produtos químicos tóxicos e reduzir o uso de água. O programa surge em um momento em que um número crescente de especialistas soa o alarme sobre os impactos ambientais da indústria da moda. A produção de roupas é uma das impulsionadoras das mudanças climáticas, consome enormes quantidades de matérias-primas e, em algumas regiões, é uma fonte significativa de poluição.
“O mundo está percebendo que precisamos mudar nossa abordagem em relação à moda e aos têxteis”, diz Elisa Tonda, chefe da divisão de Recursos e Mercados do PNUMA. “Precisamos projetar produtos para que sejam reutilizáveis, duráveis e recicláveis, a fim de proteger o planeta dos efeitos da poluição e dos resíduos.”
Foto: Cape Union Mart
Entre 2000 e 2015, a produção global de roupas dobrou, segundo a Fundação Ellen MacArthur. Esse crescimento acelerado ampliou o impacto da indústria no meio ambiente. Especialistas afirmam que os efeitos disso são sentidos de forma ainda mais intensa nos países em desenvolvimento. Um estudo publicado na revista Springer Nature identificou que mais de 15 mil produtos químicos são utilizados na fabricação de têxteis. Além disso, a produção de apenas 1 quilo de tecido consome mais de 0,5 quilo de substâncias químicas.
Para ajudar a mudar esse cenário, o PNUMA lançou o programa InTex em 2020. Oficialmente chamado de Práticas Empresariais Inovadoras e Modelos Econômicos na Cadeia de Valor Têxtil, o InTex é financiado pela União Europeia e Dinamarca. Ele foca em pequenas e médias empresas — que representam a maioria dos fabricantes têxteis do mundo — em cinco países: Índia, Indonésia, Quênia, África do Sul e Tunísia. O InTex faz parte de uma Iniciativa Têxtil mais ampla do PNUMA, que visa criar uma indústria têxtil mais limpa e sustentável.
No centro da iniciativa InTex está a ideia de que a indústria têxtil precisa abandonar seu modelo linear, no qual recursos são consumidos em grande escala para produzir roupas frágeis e descartáveis. A InTex promove um modelo em que as peças são feitas para durar, os materiais são reciclados e o uso de recursos — da água aos produtos químicos — é minimizado. Esse processo é conhecido como circularidade e, além de poupar o meio ambiente, pode gerar até US$ 700 bilhões em oportunidades de negócios até 2030, segundo a Fundação Ellen MacArthur.
Esse potencial é algo que Bilel Ben Miled conhece bem. Ele é o chefe de sustentabilidade do Grupo Gonser, uma fabricante de roupas da Tunísia. Com o apoio do PNUMA, a empresa realizou uma análise detalhada da pegada ambiental do jeans produzido em sua fábrica nos arredores de Túnis, a capital tunisiana. A unidade produz 600 mil peças por ano.
Após a avaliação, o Grupo Gonser desenvolveu uma plataforma de gestão energética para monitorar, em tempo real, o uso de água, vapor e gás na fábrica. Ben Miled afirma que o sistema, que deve ser lançado ainda este ano, ajudará a empresa a identificar desperdícios e se tornar mais eficiente no uso de recursos — algo essencial em um país que enfrenta sérias crises hídricas.
O Grupo Gonser também planeja instalar 300 quilowatts de painéis solares no telhado da fábrica até 2026, o que reduziria o consumo de eletricidade em 40%. E está avaliando um sistema automatizado de dosagem de produtos químicos que poderia reduzir o uso de substâncias químicas em 25%.
“Precisamos reduzir nossa pegada ambiental se quisermos deixar um mundo melhor para nossos filhos e para as próximas gerações”, diz Ben Miled.
O trabalho com o programa InTex faz parte de um esforço mais amplo de sustentabilidade do Grupo Gonser. Ben Miled afirma que a empresa recicla até 90% da sua água. A companhia também certificou que mais de 90% dos produtos químicos que utiliza atendem a um padrão ambiental desenvolvido para fabricantes de roupas.
O Grupo Gonser é um grande fornecedor de marcas europeias, muitas das quais estão enfrentando regras ambientais mais rígidas, especialmente no uso de produtos químicos. Um dos principais benefícios do programa InTex do PNUMA é ajudar as empresas a melhorar a eficiência, reduzir custos e atender à crescente demanda de mercados sustentáveis na União Europeia.
“As marcas estão muito engajadas agora quando se trata do meio ambiente”, afirma Ben Miled. “Se quisermos continuar com nossas atividades comerciais e expandir nossos mercados, precisamos investir em sustentabilidade.”
Tonda, do PNUMA, concorda.
“Ao considerar critérios de sustentabilidade e circularidade em suas decisões de compra, marcas internacionais podem influenciar mudanças em toda a cadeia de suprimentos, reduzindo o impacto ambiental geral da produção.”
Desde seu lançamento em 2020, o InTex já apoiou 32 pequenas e médias empresas no desenvolvimento de planos para reduzir seus impactos ambientais e socioeconômicos. Cerca de 230 representantes empresariais foram treinados em práticas circulares. O programa está agora se expandindo para a Índia e Indonésia, com o objetivo de trabalhar com mais 60 empresas e melhorar o acesso ao financiamento para pequenos fabricantes têxteis, que muitas vezes têm dificuldades para obter empréstimos.
A União Europeia reconheceu o InTex por seu papel na construção de uma indústria têxtil global mais sustentável.
“Esse é um programa importante porque mostra aos fabricantes de roupas que é possível proteger o planeta e, ao mesmo tempo, fortalecer os lucros”, afirma Tonda. “E também demonstra que investir em sustentabilidade pode dar uma vantagem competitiva às pequenas empresas.”
O trabalho do PNUMA é possível graças a contribuições flexíveis dos Estados-Membros e outros parceiros ao Fundo para o Meio Ambiente e aos fundos do PNUMA para Clima, Natureza e Poluição. Esses fundos permitem soluções ágeis e inovadoras para as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade e da natureza, além da poluição e dos resíduos. Saiba como apoiar o PNUMA para investir nas pessoas e no planeta.


