Credit: Tetiana Gry / Unsplash
27 Nov 2025 Reportagem Nature Action

Por que as geleiras importam – e quais as novas formas de protegê-las

Credit: Tetiana Gry / Unsplash

Entre maio e setembro deste ano, avalanches, deslizamentos de terra e enchentes repentinas devastaram comunidades montanhosas na Suíça, Nepal e Paquistão, destruindo infraestrutura e causando mortes e deslocamentos. Os três desastres tiveram gatilhos semelhantes: degelo do permafrost e inundações de ruptura de lagos glaciais, quando o rápido aumento da água de degelo faz com que lagos glaciais estoquem suas margens.   

Esses surtos estão se tornando mais frequentes devido à crise climática e estima-se que ameacem 15 milhões de pessoas no mundo todo. Eles também são sinais de alerta sobre o quanto as geleiras – alguns dos indicadores mais sensíveis das mudanças climáticas – estão sofrendo. De acordo com o relatório mais recente da Organização Meteorológica Mundial sobre geleiras, 2024 registrou perdas em todas as regiões do mundo devido ao aumento das temperaturas e à mudança nos padrões de chuva e neve pelo terceiro ano consecutivo.  

The Hindu Kush Himalayas rising above Chitral village in Pakistan.
O Himalaia do Hindu Kush se eleva acima da vila de Chitral, no Paquistão. Crédito: Shahzad Ali / Unsplash 

O ritmo acelerado da mudança glacial 

As geleiras estão entre os ecossistemas mais vitais, porém vulneráveis, do planeta. Encontradas em todos os continentes, elas armazenam cerca de 70% da água doce do mundo, a qual é mantida no gelo nos meses mais frios e liberada nas estações mais quentes, sustentando rios, agricultura, energia hidrelétrica e muitas formas de vida – desde plantas até animais. No entanto, sua redução está remodelando paisagens e colocando em risco mais de 2 bilhões de pessoas que dependem da água do degelo sazonal para seu sustento.   

O derretimento de geleiras deveria fazer parte de um ciclo hidrológico estável, mas o aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera está levando isso longe demais e criando ciclos viciosos de retroalimentação. Mudanças ambientais, como tempestades mais frequentes e poluição do ar, estão depositando carbono negro, poeira e areia nas geleiras, escurecendo-as e reduzindo sua capacidade de refletir a luz solar. Isso acelera o derretimento do gelo, fazendo com que o permafrost descongele e libere gases de efeito estufa adicionais, estimulando mais aquecimento. 

No curto prazo, isso está ameaçando a estabilidade de ecossistemas como lagos glaciares, e comunidades a jusante estão pagando o preço. A longo prazo, o esgotamento das reservas de gelo afetará a segurança hídrica global e a elevação do nível do mar. Em termos de biodiversidade, ela ameaça os habitats e áreas de desova das espécies de água doce, enquanto as perturbações nas complexas comunidades microbianas encontradas na criosfera terão implicações que os cientistas estão apenas começando a compreender.  

As escolhas feitas nesta década determinam o gelo que restará para as futuras gerações. Com uma média de 1,5°C de aquecimento global, mais de 54% da massa de geleiras mundial permanecerá, em comparação com 2020; a 2,7°C, apenas 24%. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2025 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente constatou que as políticas atuais nos colocam no caminho para 2,8°C. 

A Eslovênia e a Venezuela já perderam todas as suas geleiras, e pesquisadores continuam sinalizando regiões que logo seguirão o mesmo caminho. Geleiras tropicais e baixas, por exemplo no Peru, Indonésia e Uganda, estão em vias de desaparecer até 2100, e no Himalaia do Hindu Kush, onde as geleiras alimentam grandes bacias hidrográficas que sustentam cerca de 2 bilhões de pessoas, apenas um quarto do gelo provavelmente permanecerá com 2 graus de aumento de temperatura. As geleiras do Cáucaso também estão recuando rapidamente, já tendo causado uma perda de mais de 11 bilhões de toneladas de água doce. 

Elephants in front of Mt. Kenya, where glaciers could be gone by 2030.
Elefantes em frente ao Monte Quênia, onde as geleiras podem desaparecer até 2030. Crédito: Leon Pauleikhoff / Unsplash 

África Oriental na linha de frente   

A África Oriental é uma região onde a crise é mais pronunciada. O Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, o Monte Quênia e as Montanhas Rwenzori, na fronteira entre a República Democrática do Congo e Uganda, abrigam os últimos três sítios de geleiras no continente africano – e eles estão desaparecendo mais rápido do que em qualquer outro lugar da Terra. Até 2040, as geleiras do Kilimanjaro poderão ter desaparecido; as do Monte Quênia podem sumir ainda mais cedo, nos próximos quatro anos. 

Dados recentes de sensoriamento remoto mostram que, em 2022, a área total restante de geleiras na África Oriental era de apenas 1,36km2, marcando uma queda de mais de 300% em comparação com 2000.    

O rio Ngare Ndare, alimentado pelas geleiras e neve do Monte Quênia, caiu 30% no nível da água na última década, fazendo com que mais de 2 milhões de pessoas no Quênia e na Tanzânia que dependem dessa água sentissem as mudanças de forma aguda – desde a redução do fluxo dos riachos até a menor produtividade agrícola e produção de leite, e mais erosão do solo, doenças e deslizamentos de terra. 

O PNUMA está trabalhando com governos, órgãos regionais, ONGs locais e nacionais, e comunidades, para construir e fortalecer a resiliência diante das condições em transformação. O Programa Adaptação em Altitude e a coleta de soluções Mountains ADAPT são duas iniciativas que o PNUMA – como parte de seu novo projeto Montanhas Resilientes – e parceiros estão implementando para ajudar as comunidades montanhosas da África Oriental a construir resiliência, incluindo diversificação de meios de subsistência, restauração de paisagens, fortalecimento florestal e uso de soluções baseadas na natureza para melhorar a produção de alimentos e a gestão da água. 

Desde 2023, o PNUMA também facilitou a criação e o piloto do programa Mountains ADAPT Small Grants (em tradução literal: Pequenos Subsídios ADAPT para Montanhas), financiado pela Áustria, que em sua implementação completa em 2026 apoiará organizações comunitárias com pequenos subsídios para implementar projetos locais de adaptação e resiliência. Em 2025, o Yiaku Laikipiak Trust, próximo ao Monte Quênia, utilizou uma doação para melhorar a soberania alimentar, ajudando mais de 400 indígenas Yiaku a construir resiliência a choques ambientais e de mercado por meio de culturas inteligentes para o clima e sistemas de irrigação aprimorados.        

UNEP Patron Lewis Pugh swims in Antarctic waters in 2017.
O patrono do PNUMA Lewis Pugh nada em águas antárticas em 2017. Crédito: Olle Nordell 

Gelo é a pauta   

Reconhecendo que a perda de geleiras é uma preocupação global que exige ação coordenada, os Estados-Membros estão considerando uma nova proposta de resolução relacionada às geleiras e à criosfera mais ampla, que será discutida na 7ª Assembleia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (UNEA-7). Esta assembleia é o órgão de decisão de mais alto nível para o meio ambiente e será sediada pelo PNUMA em sua sede em Nairóbi de 8 a 12 de dezembro.   

O projeto de resolução se baseia na decisão da Assembleia Geral da ONU de declarar 2025 como o Ano Internacional da Preservação das Geleiras e 21 de março como o Dia Mundial anual das Geleiras.    

Na preparação para a UNEA-7, o Patrono dos Oceanos do PNUMA, advogado marítimo e nadador de resistência Lewis Pugh, escalará o Monte Quênia para destacar o rápido recuo de suas geleiras, que agora cobrem apenas 0,069km2. A Geleira Lewis, que já foi a maior da montanha, perdeu 62% de sua superfície em apenas cinco anos. Em altitude, Pugh nadará no lago glacial Tarn Lewis para conscientizar sobre seu declínio.   

"Geleiras são um sistema de alerta precoce, e esse alarme está soando alto", disse Julian Blanc, diretor da Seção de Biodiversidade e Solo do PNUMA. "Quando perdemos geleiras, não perdemos apenas gelo – perdemos água, segurança alimentar, patrimônio, culturas e a chance de um futuro estável. Cada fração de grau conta. Ainda não é tarde para salvar uma grande parte das nossas geleiras."